Em 13 de maio, data da Abolição da Escravatura, é comemorado o “Dia dos Pretos Velhos”.

Nesse ano a equipe Ori resolveu aproveitar a data para visitar um Quilombo.

Para quem não sabe, os quilombos eram redutos onde escravos que conseguiam fugir se escondiam e lá formavam verdadeiras comunidades. O mais famoso foi o Quilombo de Palmares, no interior do Estado de Alagoas.

Mas nós fomos a um Quilombo aqui mesmo no estado do Rio de Janeiro, o Quilombo São José da Serra, no município de Vassouras.

O quilombo São José é um dos 13 quilombos do nosso estado e um dos mil existentes ainda hoje no Brasil.

O quilombo São José tem cerca de 150 anos. É o mais antigo do estado do Rio. Sua formação começou aproximadamente em 1850, portanto quase quarenta anos antes da Lei Áurea (1888).

Atualmente no Quilombo São José moram cerca de 200 quilombolas, entre crianças, jovens e idosos, descendentes diretos dos escravos que fundaram a Comunidade.

Residem em casas de pau-a-pique e sobrevivem a base de agricultura de subsistência e do artesanato.

As religiões que eles professam são o Catolicismo e a Umbanda. O curioso, é que na Capela construída no quilombo São José pelos seus fundadores, as imagens pintadas do nascimento de Cristo, apresentam os Santos católicos negros. É bonito ver o painel central com São José, Maria e o próprio Jesus em peles negras.

Outra marca muito significativa do Quilombo São José, é o jongo. Mais do que um ritmo, ou uma dança, o jongo é uma manifestação cultural típica da região sudeste do Brasil, nascida nas comunidades quilombolas em sua maioria constituída por negros de origem bantu.

O jongo, considerado pai do samba, tem características rituais. Seus tambores são cuidadosamente esculpidos em troncos de madeira num processo que pode levar quase dois anos para confecção. Esses instrumentos ficam guardados dentro da capela e apenas são retirados nos momentos necessários.

Os tambores são saudados por todos antes de entrarem na roda de jongo.

As cantigas e pontos são entoadas pelos mais velhos, enquanto os casais dançam em círculos, exaltando a liberdade e a fertilidade daquele povo.

O Quilombo São José, já há alguns anos, passou a realizar uma grande festa aberta em comemoração à Abolição da Escravidão sempre em meados do mês de maio.

Moradores da região, turistas, estudantes, religiosos e curiosos enchem o Quilombo todos os anos nos dias de festa.

Comidas e bebidas típicas são vendidas em barraquinhas e uma grande feijoada cozida na lenha é servida ao povo.

Sem dúvida nenhuma, o auge do evento é a fogueira acesa durante a noite. Toras enormes de madeira são dispostas no meio do terreiro de chão batido. Uma grande roda é formada em torno dela, enquanto os membros da comunidade entram em fila dançando e cantando até formarem um círculo.

Enquanto são entoados pontos de saudação ao “Senhor da Pedreira” para que a fogueira seja benzida, a matriarca do Quilombo abençoa todos os presentes espargindo água com um galho de arruda.

Naquele momento mágico, os antigos perseguidos se tornam o centro da atração. Algozes e vítimas do passado se encontram, agora representados por seus descendentes, porém não mais em conflito. Estão todos juntos, comemorando. Não há mágoas, não há intolerância, não existem rancores. Comungam juntos da mesma comida, bebem a mesma bebida, dançam sob os mesmos ritmos.

A perseguição de outrora se transforma em admiração. Antes escondidos e refugiados, hoje os quilombolas são visitados por pesquisadores que tentam explicar ao mundo em teses elaboradas, como os conquistados conseguiram conquistar seus opressões; como os que tiveram sua fé reprimida, conseguiram converter os repressores ao seu credo.

Ali diante da fogueira enorme que clareava e esquentava nossos rostos, desceu uma lágrima silenciosa. Sozinha em meio às palmas e louvores, aquela gota de emoção testemunhava a grandiosidade dessa Gente e dessa Cultura. Uma gente que soube suportar e vencer, sem jamais perder a Fé. Um povo que conseguiu se tornar ainda mais forte com a escravidão.

Ali, encravado no vale do Paraíba, na terra dos barões do café, cento e cinqüenta anos depois, todos nobres morreram e as suas enormes fazendas foram desmembradas e vendidas. Quem sobreviveu e manteve preservados seus valores foram os negros, filhos, netos, bisnetos e tataranetos dos escravos. Só a lua testemunhou tudo isso.

Obrigado Quilombo São José! Obrigado pela recepção e obrigado pela lição de vida, de amor, de perdão e de solidariedade.