JOSEMAR D´OGUN

 

Nascido em uma família humilde no interior do Ceará, Josemar Pessoa Costa veio para o Rio de Janeiro ainda criança, trazido pela irmã mais velha.

Médium precoce foi levado por amigos à Umbanda, mas aos dez anos de idade, foi iniciado no Candomblé pelas mãos de Afonso de Inhansã.

Passando grandes dificuldades financeiras, começou logo cedo a trabalhar ajudando no sustento da família. Enquanto estudava, foi engraxate e pedreiro, até servir o Exército, quando aprendeu a dirigir. Depois que deu baixa, já casado com sua primeira esposa, trabalhou ainda como taxista.

No final da década de cinqüenta, iniciou carreira jornalística atuando nos Diários Associados. Nas horas disponíveis jogava búzios nos fundos de uma casa de artigos de Umbanda, em Jacarepaguá.

Abriu sua primeira Casa de Candomblé em 1961, aos 22 anos, na Rua Sta. Efigênia, no mesmo Bairro em Jacarepaguá.

De lá, mudou-se para a Rua Araguaia, onde protagonizou algumas das passagens mais célebres da estória do Candomblé carioca: sua rivalidade com o também já finado José Ribeiro.

Os Terreiros de ambos eram próximos. Separados um do outro apenas por um quarteirão. Seu José Ribeiro, famoso pelas consultas que dava às segundas-feiras com o Seu Exu, mandava despachar os ebós na esquina do Terreiro de Pai Josemar. Este, depois que acordava das consultas que dava com Seu Tranca-Ruas das Almas, enfurecido, mandava devolver o despacho no mesmo dia, somado aos demais carregos da Casa, na esquina de Zé Ribeiro.

Disputavam também a mídia, a grandiosidade das festas, os clientes e os filhos de santo. A essa altura, Pai Josemar já tinha estreado seu programa “O Mensageiro de Ogun”, na Rádio Metropolitana, que se tornara líder de audiência. Seu José Ribeiro, em paralelo, publicava seus livros e aparecia frequentemente em matérias na prestigiada revista O Cruzeiro, onde se intitulava “o Rei do Candomblé”.

Essa penimba durou anos, até que um dia pai Josemar chamou seus amigos e parceiros de todas as macumbas, os Ogãns Jorge Grande, Marreta e Samito resolveram ir em uma festa de Exu na Casa de Zé Ribeiro. Segundo ele próprio contava, se dirigiu aos companheiros dizendo:

- Hoje tem festa de Exu na Casa do Zé Ribeiro! Vamos lá tomar umas cachaças naquela “gafieira”!

E partiram para lá... Qual não foi a surpresa quando puseram o pé dentro do Barracão! Em meio ao fervor dos atabaques e dos quase cem Exus em terra dançando e bebendo, o Tranca-Ruas de Zé Ribeiro (de costas para a entrada) manda parar tudo na hora!. Silêncio e surpresa no salão!

Tranca-Ruas de Ribeiro se volta para a porta e fala diretamente para pai Josemar:

_ Ora, Seu Moço, resolveu vir me visitar? Pois então seja bem vindo! Pode comer, beber e dançar a vontade! Mas olha: saiba o Senhor que aqui não é “gafieira” não, viu! E gargalhou a vontade!

Depois, disso, pai Josemar e José Ribeiro se tornaram amigos inseparáveis. 

Em paralelo, seguia sua trajetória na Religião. Percorreu as Nações Angola, Jeje e Ketu, onde finalmente se encontrou. Bebeu nas fontes e tomou obrigações com outros ícones do Candomblé, como Djalma de Lalu e Zezinho da Boa Viagem.

Na mídia, teve programas nas rádios Mauá, Guanabara e Bandeirantes, até que, com o pioneirismo que lhe marcava o caráter, foi o primeiro Babalorixá do Brasil a estrear um programa de Candomblé na TV: o “Reflexões”, na Rede Corcovado. Depois, fez grande sucesso com o Programa “Alaketu”, nas Redes CNT e Bandeirantes, já ao lado de sua segunda esposa Graça de Inhançã.

Escreveu uma das mais belas orações a um Orixá, a “Prece a Ogun ”, que lia ao final de cada programa. Chegou a enviar aos ouvintes mais de 4 milhões de exemplares da oração, considerado um recorde do mesmo remetente pela Empresa de Correios e Telégrafos da época.

Sua projeção foi muito grande no meio religioso em todo o Brasil. Percorreu o país iniciando iyawôs e dando Obrigações em diversas pessoas, inclusive Zeladores e Zeladoras. Participou de Congressos e fez palestras no exterior.

Organizou os mais famosos festivais de cantigas de Umbanda e Candomblé do Rio de Janeiro, nas décadas de 60 e 70. Enfrentou a época da repressão aos cultos de matrizes africanas, tornando-se o grande opositor ao Delegado “Padilha”, que ficou conhecido como perseguidor dos Terreiros, destruindo imagens sagradas e prendendo Pais e Mães de Santo durante as sessões, alguns até mesmo incorporados.

Reza a lenda que a valentia do Delegado “Padilha” terminou quando ele resolveu enfrentar Seu Tranca-Rua das Almas de Pai Josemar em plena Gira de Exus...

Ali, na Casa de Pai Josemar D´ogun, seria escrito outro episódio antológico da nossa Religião: o Delegado entrou com seus soldados sem pedir licença, empurrando os Exus e batendo na assistência com cacetete. Quando armou golpe pra acertar Tranca-Ruas, o Exu puxou um ponto de Pomba-Gira...Foi o tempo do Delegado bambear e cair de joelho dando gargalhada com a mão para traz... Foi por isso que passou a ser conhecido como Delegado “Padilha”...

No mesma semana “Padilha” pediu baixa e se aposentou da Polícia...

Depois desse ocorrido, Pai Josemar passou a brincar dizendo: “ _ Sou Josemar De Ogun Já, e não de Ogun daqui a pouco!”

Laureado pela fama que passou a ter, pai Josemar resolveu ingressar na carreira política. Filiou-se ao PRB, depois ao PTB e finalmente ao PDT de Leonel Brizola, Carlos Lupi e Miro Teixeira. Foi grande amigo e orientador espiritual de políticos famosos, entre governadores, senadores, ministros e deputados, mas jamais conseguiu se eleger.

Pai Josemar já estava com o Terreiro na Estrada dos Bandeirantes, em Vargem Grande/RJ, bem em frente à casa da Xuxa, freqüentada por estrelas de TV. As festas de Ogun em abril, e os Toques de Exu que fazia nas segundas de Carnaval eram disputadíssimos. O Terreiro ficava lotado, dos mais humildes, aos artistas e autoridades. Pai Josemar tratava a todos de farma igual, com seu famoso jargão: “Meus maninhos e minhas maninhas”.

Embora calmo, tinha temperamento difícil, o que tornava sua vida amorosa instável. Ao partir para o terceiro casamento, teve que se desfazer do Barracão da Estrada dos Bandeirantes, onde morava e batia seu Candomblé há 23 anos, a fim de dividir os bens.

Comprou então um terreno em Pedra de Guaratiba e começou a reconstruir o Ilê Axé Ogun, em 2008.

Retornou à Rádio Metropolitana com o programa “O Mensageiro de Ogun” em final de 2009, mas acometido por um AVC, em janeiro de 2010, não pôde prosseguir.

Até que no dia 7 de março de 2011, segunda-feira de Carnaval, exatamente a meia noite, teve um infarto fulminante em plena Praça do Rodo, em Pedra de Guaratiba. Embora socorrido, já chegou sem vida no hospital.

Aos 62 anos de iniciação, com cerca de 500 filhos de santo raspados, morria uma lenda do Candomblé do Brasil. Nossa Religião perdia o Babalorixá Josemar D´ogun e ganhava mais um Ancestral; agora para nos defender do outro lado.

Josemar D´ogun ao retornar ao Orun, deixou viúva (sua terceira mulher), sete filhos e seis netos carnais. Deixou também um lindo legado a todos nós filhos, netos e bisnetos de santo. Sua alma alegre e brincalhona, sua fé inabalável em nossos Orixás, seus ensinamentos e as lendas que ele protagonizou permanecem vivas em nossos corações, em nossas mentes e na saudade eterna que guardaremos dele.

Hoje, a cada vez que um filho (seja Omo abi, ou Omo awòn) beija a palma da minha mão saudando a navalha do nosso Axé, está também saudando Josemar D´ogun, agora como Ancestral. A cada ensinamento que transmito aos mais novos, a cada gesto que meus filhos reproduzem no Ilê, reconheço ali Pai Josemar. Essa é a presença do ancestral. E assim ele já se tornou eterno, permanecendo vivo em cada um de nós.

Márcio de Jagun, 10/3/2011