QUALIDADES E TÍTULOS, SEU SIGNIFICADO E SURGIMENTO:

 

Os Orixás, em sua transposição da África para o Brasil, sofreram algumas alterações de forma, culto, características, etc. Isto devido a vários fatores, dentre eles a inexistência de mantenedores de seus cultos aqui; ou por falta de negros provenientes de regiões que os cultuassem; ou ainda por desinteresse em sua louvação.

 

Ogun, originariamente, era um deus que, na África, tinha atribuições ligadas à agricultura, caça, ao ferro e à guerra. No Brasil, apenas as duas últimas regências foram louvadas. Isto, talvez se deva ao desinteresse dos escravos em cultuarem a boa colheita de plantações que não lhes pertenciam. Acreditamos que estas variações não se deram de forma abrupta nem planejada, mas inconsciente e paulatinamente.

 

Iemanjá., por sua vez, na África era a deusa do rio Ogun, logo, de águas doces, mas sem maiores explicações plausíveis, no Brasil tornou-se a rainha do mar ganhando devotos não só entre os religiosos afro, mas entre os brasileiros de forma geral, que não se esquecem de saudá-la ao menos na passagem do ano, criando uma tradição/devoção já batizada de “iemanjismo”.

 

Ainda tendo como exemplo Ogun: ante todas as suas regências, face à realidade dos negros escravizados no Brasil, não seria plausível rogar suas bênçãos à colheita, isto porque a lavoura pertencia aos algozes, além de representar o próprio martírio do trabalho exaustivo e explorado. Igualmente quanto à caça, porque os escravos já não mais tinham autonomia para caçar e se auto sustentar, posto serem alimentados (e mau) por seus senhores. Ora, diante disto ao louvarem Ogun, seria muito mais natural invocar-lhe no tocante aos seus poderes como ferreiro e dono das armas (talvez por força do inconsciente), pela ânsia de romper-se-lhes as amarras e grilhões da escravidão, ou ainda para rogar-lhe o poder de guerra para combater os opressores. Deste modo, por  força do hábito, da repetição e da tradição (todos elementos fortíssimos na tradição africana) Ogun passou a ser exigido tão-somente quanto aos seus poderes mais caros aos negros escravos, os quais foram então transmitindo a seus descendentes, consanguíneos ou “parentes de santo” estes costumes, até perder-se no tempo as demais regências daquele Orixá.

 

O Orixá Ocô, que criou a agricultura com a ajuda de Ogun, acabou por ser seu culto esquecido entre os escravizados, sendo seu culto já extinto no candomblé do Brasil.

 

Este “rito de passagem” do Candomblé da África para o Brasil, deu-se não só quanto as regências, características e qualidades dos Orixás, ocorrendo também no tocante às comidas litúrgicas (já influenciadas pela culinária dos brancos); bem como com as ervas e plantas rituais (devido ao que seria a novidade da fauna nacional e também a por força da inexistência de algumas espécies no Brasil); assim como com as vestimentas (estas visivelmente adaptadas à “moda” européia, bastando dizer que na África não se usavam roupas com tecidos nem modelos rodados e cheios de anáguas, ao estilo das sinhazinhas do Brasil.

 

Alguns deuses, ante a tais fenômenos, foram pouco e pouco tendo seu culto fundido com outros Orixás que com eles se assemelhavam ou com os quais possuíam características comuns. Assim, o caçador Otin, teve seu culto integrado a Odé; Odudua, com Oxalá; Opará com Oxum, e assim por diante.

 

Surgiram então, de maneira lenta e natural, as chamadas “qualidades” de cada Orixá. Otin, passou a ser reverenciado como “qualidade”de Odé; Odudua, de Oxalá e Opará, de Oxum.

 

Tal fenômeno talvez explique, a contradição entre alguns itãns que se chocam ao descrever diferentes mitos em que o mesmo Orixás era casado com diferentes parceiros, ou pai, irmão, filho de outros diversos Orixás, dando muitas vezes a impressão de promiscuidade e dúvidas acerca da real procedência e mesmo da coerência de certos mitos e orikis.

 

Portanto, as “qualidades” dos Orixás, quer seja, esta verdadeira fusão de deuses, resultou na prática, em cultos diferenciados, permeados de particularidades, que podem se resumir em  “virtudes” ou em “valores”, com as quais passaram a ser cultuados, mas sem jamais perder suas características essenciais.

 

Por exemplo, Airá, membro da dinastia de  Oyó, na condição de “qualidade”/”virtude” de Xangô, passou a ser reverenciado com suas tradicionais contas vermelho e brancas rajadas e recobrindo-se de vestes brancas em homenagem a Oxalá. Diferentemente das outras qualidades, que usam miçangas marrom e brancas e trajam-se de cores fortes, com tons de vermelho e por vezes de marrom.

 

Assim, os filhos de Xangô – Airá, ao cultuarem seu Orixá, devem respeitar tais “virtudes” particulares que fazem com que seu culto seja diferenciado dos demais “Xangôs”.

 

Pelo exposto, a nosso ver, as qualidades tão difundidas no Novo Mundo, significam, na prática, a subjetivação de cada Orixá, mas jamais a modificação dos mesmos.

 

Há aqueles que se queixam de que teriam sido consagrados a equivocada qualidade de determinado Orixá, e atribuem a isto infortúnios e desgraças. A nosso ver, tal situação não procede,  porque, como dissemos, a qualidade não altera o deus, mas o qualifica, especifica, particulariza em suas subjetivas virtudes. Não poderia ser diferente, posto que as qualidades dos Orixás, não modificam sua essência originária. Assim, todas as qualidades de Oxum, por exemplo, são virtudes da mesma Osa Omi.

 

Contudo, devemos registrar que as variadas qualidades  do mesmo Orixá alteram, às vezes de forma significativa, as influências que determinada Divindade exerce sobre o indivíduo que lhe é consagrado, no entanto, reiteramos, sem perder-se a essência. Por exemplo, entre um filho de Oxaguiã e um de Oxalufã, duas das qualidades de Oxalá, há variações de personalidade. Enquanto o oloxá do primeiro é mais aguerrido, combativo, determinado e falante, o do segundo mostra-se mais introspectivo, rabugento e calado, embora ambos possuam as mesmas características gerais de quem é consagrado a Oxalá, divindade do elemento ar e do branco, limitando-se inclusive aos mesmos ewós.

 

Tanto assim é, que na Mãe África, não existia o culto aos Orixás em suas qualidades, e isto nunca foi causa de qualquer malogro aos elegúns.

 

Em outros países, como Cuba, Panamá, e até mesmo em diversas regiões no mesmo Brasil, variam as “virtudes”/.”qualidades” atribuídas aos Orixás, e às vezes até mesmo há diferenças na mesma região, variando de Nação ou de raiz de Culto.

 

Não se deve confundir “qualidades”com “títulos”. Por exemplo, Iansã, possui o título de iya messã orun (senhora dos nove espaços siderais). Mas esta não pode ser considerada uma de suas qualidades, posto não tratar-se de uma virtude especial, mas genérica daquela divindade.

 

Enquanto as “qualidades” dos Orixás significam (vernacularmente) propriedades, atributos, formas de distinção, portanto diferenciações que subjetivam os iguais; os “títulos” conferidos aos deuses têm o sentido de designação honorífica, predicados que tais divindades possuem em caráter genérico.

 

Assim, sabemos que as qualidades de Exu são infinitas, mas genericamente foi-lhe conferido o título de Ójíse (mensageiro), dentre outros que bem caracterizam sua regência e poder inerente.

 

Os títulos decorrem de conquistas, feitos, poderes especiais que cada qual dos Orixás possui. Já as qualidades, como vimos, são fruto da agregação de divindades similares, com atributos próprios, gerando peculiaridades na forma de culto, mas sem perder-se as características gerais daquele Orixá.

 

Assim, passaremos a apontar a todas qualidades e títulos, por cada Orixá, sem nos prendermos a qualquer critério em especial.